Nestor Perlongher
O negócio do michê: a prostituição viril em São Paulo
Brasiliense
livro em bom estado, brochura original, escasso, não perca, saiba mais....
"Quando
vou transar com um cliente" - diz um garoto de programa entrevistado
por Nestor Perlongher em O negócio do michê - "eu não sou eu; eu sou a
fantasia do cliente".
O desejo fora da ordem se vê emaranhado, de saída,
nas demandas da troca material e do imaginário que o provoca e regula.
Na enunciação do rapaz se condensa o complexo de questões
que a prostituição homossexual masculina abarca e projeta para além dela
própria, e que formam a matéria desse notável trabalho, reeditado em
boa hora.
Trata-se de uma etnografia substancial e de um ensaio
brilhante de interpretação teórica, que não apenas se destaca no
importante acervo de estudos socioantropológicos de sexualidade feitos
no Brasil, em sua época, como se mostra altamente proveitoso e relevante
à luz dos debates atuais.
A expansão do espetáculo e do consumo voltado às
homossexualidades deparava-se então com a terrível irrupção da pandemia
da Aids, cuja magnitude trágica apenas se desenhava e da qual o próprio
Perlongher veio a ser uma das vítimas.
Nesse quadro, a discussão
em torno da homossexualidade masculina, tanto na academia como na
política, problematizava a questão das emergentes políticas de
identidade. Havia naquele momento uma grande inquietação quanto à
possibilidade de essencialização (ou "reificação", para usar uma
expressão mais comum à época) da oposição hetero/homossexualidade e da
conseqüente instituição de novas formas de rotulação, estigmatização e
marginalização. A base era a conhecida reflexão de Peter Fry acerca de
dois modelos classificatórios da sexualidade masculina em disputa. De um
lado, o modelo "hierárquico-popular", de profundas e persistentes
raízes históricas e culturais, que distinguia "homens" e "bichas",
respectivamente "ativos" e "passivos", segundo uma hierarquia de gênero
articulada ao papel esperado no ato sexual. De outro, o modelo
"igualitário-moderno", que distinguia "homossexuais" ("entendidos" ou
"gays") e "heterossexuais" a partir de concepções de orientação do
desejo sexual, cuja origem estaria nos discursos médicos e psicológicos
do final do século XX, crescentemente adotado pelos movimentos em defesa
dos direitos homossexuais e pelos setores mais intelectualizados das
classes médias das grandes cidades.
O negócio do michê apresenta-se como um paradoxo: por um
lado, põe em movimento uma fuga desejante que enlaça os corpos (uniões
de órgãos, mais do que conjugalizações personalizadas). Por outro, uma
diversidade de dispositivos se instaura para canalizar, veicular essa
eclosão desejante, de modo a evitar, esmagar ou neutralizar os perigos
de fuga. Perigos estes que podem aparecer sob diversas formas: perigo de
morte ou violência corrido pelo cliente; perigo de paixão ou
efeminamento vivido pelo prostituto.
Como alternativa ao foco
nas identidades sociossexuais, Perlongher elaborou a idéia de
"territorialidade", com a qual seria possível compreender as categorias
de autodefinição sexual como "pontos" dentro de redes circulatórias, os
quais estariam numa relação de contigüidade e mesmo de mistura. A
territorialidade é assim pensada em termos de um "código-território",
que atualiza uma lógica peculiar de distribuição de atribuições
categoriais a corpos e desejos em movimento, estipulando a fixação a um
gênero, uma postura, uma aparência, uma gestualidade, uma
discursividade, uma corporalidade - tatuagens e outras marcas corporais,
tipificação da indumentária, modelização de tiques, trejeitos e
gestuais -, que operam como indícios de um desempenho sexual esperado ou
proclamado segundo os critérios de seleção e valorização de parceiros
do mercado homoerótico masculino.
Na compreensão das trajetórias e
transas entre michês e clientes, Perlongher recorreu ainda às noções
deleuzeguattarianas de "desterritorialização" e "reterritorialização",
as quais correspondem, respectivamente, a afastamentos em relação às
sociabilidades respeitáveis, moralmente reconhecidas, e a aproximações
aos códigos do "submundo"; no caso, da homossexualidade e da
prostituição.
Territorialidades envolvem, portanto, mais do que
representações ou projetos: dizem respeito às mobilizações e
deslocamentos espaciais e categoriais, bem como à materialidade de
corpos e partes de corpos ressaltados e valorizados, incluindo os
próprios lugares que esses corpos percorrem e dos quais auferem parte de
sua legibilidade.
Vale
notar que a operacionalização etnográfica, por Perlongher, dos
conceitos de Deleuze e Guattari, passava pela incorporação germinativa
de uma insuspeitada ligação entre essas preocupações teóricas e certos
pontos de vista da célebre "Escola de Chicago", sobretudo no que diz
respeito ao esforço de jogar luz sobre a fragmentação ou segmentaridade
do sujeito urbano que, como ressalta Perlongher, teria sido assinalada
pioneiramente pelos clássicos dessa tradição.
Mais do que estas e várias
outras ressonâncias no debate contemporâneo, porém, fica a referência de
um trabalho de pesquisa sólido, de escrita eloqüente, que enfrentou
questões de agência, perigo, dissenso e desigualdade, de uma perspectiva
antropológica revigorada, ousada e criativa, numa temática ainda não
plenamente legitimada nas nossas ciências sociais.
Longe de um retrato
aventuroso e exotizante, orientado por algum fascínio ingênuo pela
marginalidade, o "negócio do michê" é mostrado como agenciamento
complexo de fluxos de dinheiro e desejo, de paixão e de morte, de
corpos clientes (homossexuais marginalizados pela idade e pelo
estigma), de corpos prostituídos (adolescentes minoritarizados pela
juventude e pela miséria).
A estrutura virada ao avesso expõe
sem escamoteações estéticas sua molecularidade dura de afetos,
carências, violências e desigualdades, de carne, sangue e demais
fluidos.
Trata-se de um trabalho bastante elogiável e competente.
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