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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Autor : Carlos Ginzburg Título : Olhos de Madeira Nove reflexões Sobre a Distância




Autor : Carlos Ginzburg

Título : Olhos de Madeira Nove reflexões Sobre a Distância

Editora : Cia das Letras

Ano : 2001

Páginas : 311


Comentário : Livro em bom estado de conservação, brochura com capa original.

O mundo está ficando cada vez menor, é o que costumamos dizer, referindo-nos ao fenômeno da globalização. Por essa razão, o convívio com outras culturas parece ser o desafio do nosso tempo. Por outro lado, o contato entre culturas diferentes não é coisa nova, sempre fez parte da história.

Uma longa tradição atribui ao olhar do estranho - do selvagem, do camponês, do animal - a capacidade de desvendar as mentiras da sociedade. E por quê? Por que, na Idade Média, durante os funerais dos reis da França e da Inglaterra, levava-se em procissão um boneco chamado "representação"? Você mataria um mandarim chinês desconhecido se lhe oferecessem um bom dinheiro? Jesus era cristão? Por que recorremos com tanta freqüência a metáforas visuais como "perspectivas" ou "ponto de vista"?


Nessas "reflexões sobre a distância", o historiador Carlo Ginzburg mostra que é impossível contar a história da civilização européia sem falar de seus contatos com outras civilizações.
Cada um dos nove ensaios reunidos desenvolve uma idéia escolhida pelo autor como representativa desses contatos. Cada idéia é exposta através de pontos de vista diferentes, e nas correspondências entre essas diferentes perspectivas descobre-se a continuidade do pensamento de um dos mais importantes historiadores da atualidade. Olhos de madeira nos ensina que o convívio com os outros constitui não apenas uma experiência enriquecedora, mas é o desfio de toda a história.


Carlo Ginzburg reuniu nove ensaios reflexivos e nomeou-os em um livro com o título “Olhos de Madeira”. Esses olhos de madeira são os de Pinóquio no famoso conto de Carlo Collodi. Podem ser olhos de madeira que nos olham estranhamente ou podem ser os nossos olhos que deveriam ser estranhos olhos de madeira; penso que devam ser os dois.

O autor nos leva por um mundo de personagens literários bastantes conhecidos no mundo cultural das letras começando com Marco Aurélio e chegando até os nossos dias. Nos convida a olhar e ser olhado; nos convida a usar a pupila dos olhos para sermos pupilos dos olhos dos mestres; nos excita a sermos ingênuos e despretensiosos e com isso treinar e exercer o estranhamento.

Quando olhamos para um outro ser humano podemos ver um véu (de Mâyâ) embaçando o relacionamento; mas este véu está sobre o outro ou está sobre nós? Provavelmente encontraremos dois véus, mas à distância que leva ao estranhamento nos fará tirar o nosso véu para tentar nos descobrir no outro e possivelmente o outro tirará o seu véu.

A proposição de Ginzburg é difícil e ao mesmo tempo instigante. Resta-nos a coragem de nos sentir bonecos de pau, para então começar a transformação em seres de carne, osso e sangue.

A manipulação da realidade é outro tema de reflexão para Ginzburg. Desde a manipulação da religião, como em Maquiavel, até a manipulação da propaganda, como no estudo de Marx sobre Napoleão III. Cada época inventa o seu mito, a sua representação da verdade. Ela pode assumir o aspecto de idolatria por uma estátua de cera ou de furor patriótico, mas o objetivo é sempre o mesmo: garantir a ordem social e manter a distância em relação às classes ou etnias consideradas inferiores.

O conceito de superioridade social e racial implica a possibilidade de estabelecer outras hierarquias. Ginzburg descreve as contraposições que se formaram na História em torno de idéias hierarquizantes como escala de valores, progresso artístico ou avanço civilizatório. E conclui com as seguintes palavras: "Estender nossa compaixão a seres humanos distantíssimos seria, temo, mera retórica. Nossa capacidade de contaminar o presente, o passado e o futuro é incomparavelmente maior do que nossa fraca imaginação moral".

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