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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Juliano Moreira Medicina Historia Bahia Afrodescendente Medico Negro etc







Juliano Moreira (1873-1933), baiano de Salvador, é freqüentemente designado como fundador da disciplina psiquiátrica no Brasil.

Sua biografia justifica tal eleição: mestiço (mulato), de família pobre, extremamente precoce, ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia aos 13 anos, graduando-se aos 18 anos (1891), com a tese "Sífilis maligna precoce". Cinco anos depois, era professor substituto da seção de doenças nervosas e mentais da mesma escola. De 1895 a 1902, freqüentou cursos sobre doenças mentais e visitou muitos asilos na Europa (Alemanha, Inglaterra, França, Itália e Escócia).


De 1903 a 1930, no Rio de Janeiro, dirigiu o Hospício Nacional de Alienados. Neste, embora não fosse professor da Faculdade de Medicina do Rio, recebia internos para o ensino de psiquiatria. Aglutinou ao seu redor médicos que viriam a ser, eles também, organizadores ou fundadores na medicina brasileira, de diversas especialidades: neurologia, psiquiatria, clínica médica, patologia clínica, anatomia patológica, pediatria e medicina legal, tais como Afrânio Peixoto, Antonio Austragésilo, Franco da Rocha, Ulisses Viana, Henrique Roxo, Fernandes Figueira, Miguel Pereira, Gustavo Riedel e Heitor Carrilho, entre outros.


Um aspecto marcante na obra de Juliano Moreira foi sua explícita discordância quanto à atribuição da degeneração do povo brasileiro à mestiçagem, especialmente a uma suposta contribuição negativa dos negros na miscigenação.

A posição de Moreira era minoritária entre os médicos, na primeira década do século XX, época em que ele mais diretamente se referiu a esta divergência, polemizando com o médico maranhense Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906).

Também desafiava outro pressuposto comum à época, de que existiriam doenças mentais próprias dos climas tropicais.
 
Convém ressaltar que a teoria da degenerescência nunca seria colocada em questão por Moreira, mas apenas os seus fatores causais. Para ele, na luta contra as degenerações nervosas e mentais, os inimigos a combater seriam o alcoolismo, a sífilis, as verminoses, as condições sanitárias e educacionais adversas, enfim; o trabalho de higienização mental dos povos, disse ele, não deveria ser afetado por "ridículos preconceitos de cores ou castas (...)".

Em seu discurso de posse, ao ser aprovado no concurso para professor da Faculdade de Medicina da Bahia, em maio de 1896, Moreira descreveu de forma tão elegante quanto contundente o que parece ser sua experiência pessoal com relação ao marcante preconceito de cor na sociedade brasileira de então. Endereçando-se

"(...) a quem se arreceie de que a pigmentação seja nuvem capaz de marear o brilho desta faculdade (...)",

disse:

"Subir sem outro bordão que não seja a abnegação ao trabalho, eis o que há de mais escabroso. (...) Em dias de mais luz e hombridade o embaçamento externo deixará de vir à linha de conta. Ver-se-á, então que só o vício, a subserviência e a ignorância são que tisnam a pasta humana quando a ela se misturam (...). A incúria e o desmazelo que petrificam (...) dão àquela massa humana aquele outro negror (...)"


Resumidamente, pode-se dizer que, de meados do século XIX até cerca de 1910, o país se definia prioritariamente pela raça, isto é, as discussões sobre o caráter nacional e o futuro da nação passavam pela solução dos problemas atribuídos à miscigenação do povo brasileiro. A partir da década de 1910, e especialmente após o fim da Primeira Guerra Mundial, o movimento pelo saneamento rural do Brasil ganhou força, e se deslocou o foco para a doença ou as doenças dos brasileiros.

Um Brasil desconhecido seria revelado a partir de expedições de órgãos do governo, como as de Cândido Rondon, do Mato Grosso ao Amazonas, em 1907 e 1908, e as expedições científicas de Oswaldo Cruz.

 Ao mesmo tempo, intensas campanhas sanitárias eram coordenadas por Oswaldo Cruz, contra a febre amarela e contra a varíola, doenças que espantavam muitos visitantes e imigrantes do Brasil.

A doença tornou-se a chave para a identificação do Brasil, a higienização sua possibilidade de redenção.

A ciência, mais especificamente a medicina, tendeu, então, a se auto-representar como norteadora do processo de definição da nacionalidade e da modernização do país.
 

Sua extensa obra escrita abrangeu várias áreas de interesse; inicialmente, publicou estudos nas áreas de sifiligrafia, dermatologia, infectologia e anatomia patológica. A seguir, concentrou-se cada vez mais nas doenças nervosas e mentais, em descrições clínicas e terapêuticas, escreveu sobre modelos assistenciais e sobre a legislação referente aos alienados, discutiu a nosografia psiquiátrica e estudou as histórias da medicina e da assistência psiquiátrica no Brasil.

Tinha especial interesse pela então chamada "psiquiatria comparada", ou seja, as manifestações das doenças mentais em culturas diversas, como atesta a sua correspondência com Emil Kraepelin.





Ao longo de toda sua vida, participou de muitos congressos médicos e representou o Brasil no exterior, na Europa e no Japão. Foi membro de diversas sociedades médicas e antropológicas internacionais; fundou, em colaboração com outros médicos, os periódicos:

 Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal (1905), Arquivos Brasileiros de Medicina (1911)
Arquivos do Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro (1930)
Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal (1907).

Finalizando, para melhor entender a atuação de Juliano Moreira deve-se recordar que, nas primeiras décadas do século XX, a medicina brasileira acreditava ser capaz de dirigir o processo de modernização e sanitarização do país.

Assim também cria Juliano Moreira e sua atuação foi coerente com esta visão; para ele, o principal papel da psiquiatria estava na profilaxia, na promoção da higiene mental e da eugenia.

Em que pese o caráter francamente intervencionista deste projeto médico, não se pode negar o brilhantismo, a coragem e a originalidade deste fundador da psiquiatria brasileira.

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Obras, caso haja interesse consulte-nos:

MOREIRA, Juliano. Silva e Lima e a Gazeta Medica da Bahia (1866-1916). Bahia Ilustrada, Salvador, v.2, p.1-3. 1918.

MOREIRA, Juliano. Conferência: O progresso das ciências no Brasil. Anais da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, v.35, p.32-47. 1913.

MOREIRA, Juliano. A imprensa médica nacional. Gazeta Medica da Bahia, Salvador, v.33, p.342. 1902.

MOREIRA, Juliano. O asilo-colônia de Alienados em Juqueri (S. Paulo). Gazeta Medica da Bahia, Salvador, v.33, p.399-407. 1902.


MOREIRA, Juliano. Da necessidade da fundação de laboratórios nos hospitais. Gazeta Medica da Bahia, Salvador, v.33, p.439-450. 1902


MOREIRA, Juliano. O trigésimo quinto aniversário da Gazeta. Gazeta Medica da Bahia, Salvador, v.33, p.1-3. 1901.

MOREIRA, Juliano. Existe na Bahia o botão de Biskra?: estudo clínico. Anais da Sociedade de Medicina da Bahia, sessão de 30 dez. 1894. Gazeta Medica da Bahia, Salvador, v.26, p.254-258. 1895

MOREIRA, Juliano. Distribuição geográfica do botão endêmico dos países quentes. Anais da Sociedade de Medicina da Bahia. Artigo, abr. 1895. Gazeta Medica da Bahia, Salvador, v.26, p.369-374. 1895

MOREIRA, Juliano. Endemo-epidemia da Jacobina (1891-1892). Gazeta Medica da Bahia, Salvador, v.25, p.508-512; v.26, p.25-30, 61-63, 159-158. 1894.


MOREIRA, Juliano. Revista da imprensa médica. Gazeta Medica da Bahia, Salvador, v.25, p.174-178. 1893.

MOREIRA, Juliano. Etiologia da sífilis maligna precoce. Tese inaugural de doutoramento - Faculdade de Medicina da Bahia (Fameb), Salvador. 1891.

MOREIRA, Juliano; AUSTREGÉSILO, Antônio. Contribuição ao estudo do ainhum. Brazil-Medico, Rio de Janeiro, v.22, n.17, p.161-15; n.18, p.171-174. 1908.



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